Retratos da Dor

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Musicália

Retratos da Dor




Retratos da Dor

António Pinho Vargas | Foto de João Francisco Vilhena (2018)
A ocasião da estreia de uma obra musical configura-se, necessariamente, como um momento de expectativa partilhado pelo compositor, intérpretes e público. Mais ainda tratando-se de António Pinho Vargas, uma referência incontornável do panorama cultural e artístico do pós-25 de Abril. Apresenta-se aqui a sua primeira Sinfonia, a qual chamou Subjetiva.

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Pormenor da pintura «O baloiço», de Jean-Honoré Fragonard (1767) | Fonte: Wikimedia Commons
 
Tal como a música, também as palavras se transformam no tempo. Por isso, quando se trata de ouvir aqueles concertos que Antonio Vivaldi reuniu no seu Op. 4, é importante termos presente que o termo «extravagância», deste modo reportado às primeiras décadas do século XVIII, não tinha a significação que lhe conhecemos hoje. São doze concertos para violino e orquestra reunidos numa publicação intitulada «La Stravaganza» e que surpreendem pelos contrastes abruptos entre melodias afáveis e momentos de virtuosismo desenfreado.

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Gravação da Ária da Suíte N.º 3 publicada no Canal Youtube pelo agrupamento Voices of Music

 

Na Suíte Orquestral N.º 3 de Johann Sebastian Bach (BWV 1068) predominam as sonoridades opulentas que todos associamos aos estilo barroco francês. Destaca-se, no entanto, a serena beleza do segundo andamento que, num registo contrastante, tornou-se numa das páginas mais célebres do compositor alemão. É a «Ária na Corda Sol».

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O compositor António Pinho Vargas e o violoncelista Pavel Gomziakov em dezembro de 2017 no Teatro Thalia |  Foto de Marcelo Albuquerque 
 
RETRATOS DA DOR
 
Six Portraits of Pain, para violoncelo e orquestra, foi estreada em 2005, quando da inauguração da Casa da Música, no Porto. É uma das obras mais elogiadas do extenso catálogo de António Pinho Vargas. Ao longo de quase meia hora, atravessa dimensões sofridas da existência e criatividade humana. Evoca frases de vários escritores e filósofos numa partitura que se oferece às reflexões e ideias do compositor.
 
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    A essência do gesto criativo, o desígnio da produção de uma Obra de Arte, a ponderação existencialista do seu propósito, do seu sentido, da sua posição no mundo, na relação com os outros e com o próprio autor: estes são motivos de pensamento que nesta composição se entrecruzam na filigrana dos sons, proporcionando-nos uma escuta tão híbrida quanto intensa, e que facilmente imerge na introspeção. As palavras que se intrometem pertencem a Gilles Deleuze, Thomas Bernard, Manuel Gusmão, Anna Akhmátova e Paul Celan. Expõem diferentes tipos de sofrimento em torno da ação de criar, de existir. Mas a maior parte não se ouve, ou sequer é revelada ao ouvinte, permanecendo a sua inscrição nas partituras, suspensas diante do olhar dos músicos. Só um desses textos, o de Akhmátova, é difundido em registo sonoro, amplificando a voz do próprio compositor. Destaca-se também a parte do violoncelo, que todavia não se submete aos previsíveis arquétipos do solista romântico. Todo o virtuosismo se transforma em gesto expressivo, refletindo um esforço sintético permanente, numa relação estreita com cada um dos outros instrumentos da orquestra, em particular com os primeiros violinos.

 

 

Orquestra Metropolitana de Lisboa
Solista: Pavel Gomziakov (violoncelo)
Maestro: Pedro Amaral

 

António Pinho Vargas Six Portraits of Pain

 

 

 

A realizadora Teresa Villaverde
 
O novo filme de Teresa Villaverde resulta de um raro desafio: o de produzir uma obra cinematográfica para ser projetada em simultâneo com a interpretação ao vivo de Six Portraits of Pain, de António Pinho Vargas. Apresenta-se assim reinventada uma das obras mais conhecidas do compositor português. Estreada em 2005, a partitura percorre uma reflexão em torno da melancolia e da angústia no processo de criação artística.

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O barítono Johann Vogl, intérprete dileto das canções de Franz Schubert. Litografia de Josef Kriehuber (1830) | Fonte: Wikimedia Commons

 

A repetição melódica é um dos aspetos que, a respeito da música instrumental de Franz Schubert, são mais frequentemente criticados por aqueles que preferem a robustez formal no repertório oitocentista. É evidente, todavia, que não se trata aqui de uma limitação técnica ou criativa que resulta em redundância. Em vez disso, devemos realçar duas outras características que distinguem o estilo musical do compositor. A mais evidente é o dom melódico que todos contagia. A segundo é a importância do uso da Variação, enquanto procedimento. O segundo andamento do Quarteto de Cordas A Morte e a Donzela e o quarto do Quinteto com Piano A Truta são exemplos emblemáticos disso mesmo.

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