Os Humores de Brahms

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Musicália

Os Humores de Brahms




Os Humores de Brahms
Fonte: www.pxhere.com
 
Licenciado em Composição pela Escola Superior de Música de Lisboa, Bruno Gabirro completou o Mestrado em 2008 na Royal Academy of Music. Foi durante este último período de formação, passado em Londres, que recebeu a encomenda para compor uma obra destinada ao ensemble de cordas Royal Academy Soloists. Nasceu assim a obra Rebel (Chaos), prontamente distinguida com o Premio Eric Coates para Composição.

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Olivier Messiaen em 1986 | Fonte: Wikimedia Commons
 
As obras musicais Hommage à Messiaen e Modos de Expressão Ilimitada, respetivamente assinadas por Vasco Pearce de Azevedo e Eurico Carrapatoso, coincidem nalguns aspetos. Ambas estão escritas para orquestra de cordas e prestam tributo a Olivier Messiaen (1908-1992), uma figura pioneira que, de maneira audaz, soube fecundar a criação musical com inspirações improváveis, integrando-as na sua própria linguagem. Os dois compositores portugueses escrevem sobre isso, na primeira pessoa.

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Etiqueta do disco da primeira gravação comercializada de Rhapsody in Blue (1924) | Fonte: Wikimedia Commons
 
Rapsódia Americana, foi este o título provisório de Rhapsody in Blue, a obra concertante para piano e orquestra que em 1924 abriu novos caminhos à carreira de George Gershwin e, bem mais importante, também à música estadunidense. Numa época em que o Novo Mundo buscava uma identidade cultural própria, à semelhança do que ocorreu por toda a Europa, o Jazz impôs-se como a mais genuína expressão musical, alastrando-se às rádios, aos discos e às salas de concerto clássicas. Em forma de Rapsódia, e por entre a azáfama dos teatros da Broadway, Gershwin compôs este precioso «caleidoscópio musical da América».

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O Lago Wörthersee, Pintura de Marko Pernhart (1824–1871) | Fonte: Wikimedia Commons
 
OS HUMORES DE BRAHMS
 
Tal como as sinfonias de Beethoven com número par, a Segunda Sinfonia de Brahms é por vezes conotada com um período de relaxamento que o compositor se ofereceu após o esforço gigantesco despendido com a sinfonia anterior. Seria então um exercício de escrita descontraído, porventura menos cuidado, em matéria de composição. Mas esta leitura não resiste, sequer, à primeira audição. Ao cabo de uma dúzia de compassos, logo percebemos que é muito mais do que isso. Com ironia, o próprio compositor chamou-lhe «Sinfonia Feliz». Mas também disse, noutra ocasião, que a partitura deveria ter uma orla negra, tal era a melancolia que a trespassava. Em que ficamos?
 
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    Como se tivesse sido arrancada das trevas, a pretensa luminosidade da Segunda Sinfonia de J. Brahms é frequentemente apresentada como uma evolução espirituosa e bem humorada da sinfonia anterior. Com evidência, esta é uma abordagem bastante redutora. Uma escuta atenta logo revela meandros extraordinariamente complexos, se bem que discretos e avessos ao aparato sinfónico romântico. Considerando a sua «narrativa emocional», esta é uma obra com muitas caras. O relevo da componente melódica e dos padrões rítmicos emprestados da Dança empresta a algumas partes uma ambiência bucólica evocativa de um idealizado fascínio pela natureza – chamaram-lhe, por isso, Sinfonia Pastoral, sugerindo reminiscências da Sexta Sinfonia de Beethoven. Noutras partes, porém, assiste-se a uma inquietação provocada por transições dinâmicas repentinas, apontamentos trágicos, breves exaltações festivas, momentos de contemplação introspetiva que assentam em sonoridades lúgubres, tais como o tema introdutório dos violoncelos, ou as intervenções dos tímpanos e dos trombones que se ouvem de seguida.

 

    Nenhuma sinfonia de Brahms pode ser entendida como uma ilustração postal. Se assim fosse, projetar-se-iam as margens do lago Wörthersee com os Alpes Austríacos em fundo, cenário onde no verão de 1877 a Sinfonia em Ré Maior foi composta – também Mahler ali compôs mais tarde, durante as «férias». Em correspondência trocada com Clara Schumann e com o compositor e maestro Vincenz Lachner, o próprio Brahms falava da disposição elegíaca, da melancolia e das dúvidas existenciais que o inspiraram. Para lá disso, esta é uma obra estruturalmente sólida, firmada na tradição clássica, mas com um cunho pessoal inconfundível. Neste sentido, é curioso pensar que a monumentalidade da Primeira Sinfonia abriu caminho à depuração criativa da segunda. O arrebatamento épico e o enfrentamento do legado de Beethoven, enquanto processo catártico, terão aberto caminho ao sublime histórico brahmsiano na sua dimensão sinfónica.

 

 

Orquestra Metropolitana de Lisboa

Maestro: Pedro Amaral

 

J. Brahms Sinfonia N.º 2, Op. 73

 
 
 
 
Capa da 1.ª Edição da Segunda Sinfonia de J. Brahms (1878) | Fonte: IMSLP
 
A Segunda Sinfonia de Brahms é bastante mais discreta do que a Primeira. Requer, por isso, uma atenção especial. Em muita música alemã da segunda metade do século XIX sente-se a nostalgia provocada por um modelo de criação artística que se esgotava. Em Brahms, todavia, não se vislumbra qualquer laivo de decadência. A destreza técnica e a sobriedade expressiva que se reconhecem neste seu Op. 73 ajudam a explicá-lo. Brahms não ansiava por um lugar na História. Ele interpretava o seu lugar na História. Encarava a Tradição com uma atitude construtiva, sempre buscando novos caminhos e soluções.

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Brahms ao piano em 1896 | Pintura de Willy von Beckerath (1868-1938) | Fonte: Wikimedia Commons
 
SOB O SIGNO DE BRAHMS
Após um longo período em que Brahms foi pejorativamente conotado com a ala mais conservadora do século XIX, a importância do seu legado é hoje por de mais evidente. No âmbito da música coral, soube colher frutos na polifonia renascentista e barroca. Em música de câmara e no repertório pianístico, fez ressoar a mais sublime cumplicidade com Schubert e Schumann. Já na música orquestral, seguiu a peugada de Beethoven. Exemplos de diversidade, a primeira e última obras orquestrais do compositor alemão espelham bem as duas últimas vertentes. O primeiro dos seus dois concertos para piano, esboçado em 1854, evoluiu desde uma Sonata para Dois Pianos para uma obra em que o solista se funde com a orquestra. Já em 1887, surgiu o Concerto para Violino e Violoncelo, a sua derradeira partitura com orquestra, ainda que tenha sido escrita dez anos antes de morrer.

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