A 2.ª Sinfonia de Brahms

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Musicália

A 2.ª Sinfonia de Brahms




A 2.ª Sinfonia de Brahms
Franz Joseph Haydn | Gravura de Francesco Bartolozzi datada de 1791 | Fonte: BnF Gallica
 

UM VERDADEIRO ACHADO

Em 1961 fez-se uma descoberta extraordinária no Museu Nacional de Praga. Tratava-se da partitura manuscrita do primeiro Concerto para Violoncelo e Orquestra de Joseph Haydn, um obra que permanecera duzentos anos silenciada. Espalhou-se a notícia, e não tardaram as gravações dos mais prestigiados violoncelistas, tais como Jacqueline du Pré ou Mstislav Rostropovich, entre tantos outros. Hoje em dia, é uma obra que se impõe nas programações das salas de concertos de todo o mundo, sempre com a aparente naturalidade do primeiro dia em que foi tocada.

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Fonte: www.pxhere.com
 
Licenciado em Composição pela Escola Superior de Música de Lisboa, Bruno Gabirro completou o Mestrado em 2008 na Royal Academy of Music. Foi durante este último período de formação, passado em Londres, que recebeu a encomenda para compor uma obra destinada ao ensemble de cordas Royal Academy Soloists. Nasceu assim a obra Rebel (Chaos), prontamente distinguida com o Premio Eric Coates para Composição.

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Etiqueta do disco da primeira gravação comercializada de Rhapsody in Blue (1924) | Fonte: Wikimedia Commons
 
Rapsódia Americana, foi este o título provisório de Rhapsody in Blue, a obra concertante para piano e orquestra que em 1924 abriu novos caminhos à carreira de George Gershwin e, bem mais importante, também à música estadunidense. Numa época em que o Novo Mundo buscava uma identidade cultural própria, à semelhança do que ocorreu por toda a Europa, o Jazz impôs-se como a mais genuína expressão musical, alastrando-se às rádios, aos discos e às salas de concerto clássicas. Em forma de Rapsódia, e por entre a azáfama dos teatros da Broadway, Gershwin compôs este precioso «caleidoscópio musical da América».

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Capa da 1.ª Edição da Segunda Sinfonia de J. Brahms (1878) | Fonte: IMSLP
 
A 2.ª SINFONIA DE BRAHMS
 
A Segunda Sinfonia de Brahms é bastante mais discreta do que a Primeira. Requer, por isso, uma atenção especial. Em muita música alemã da segunda metade do século XIX sente-se a nostalgia provocada por um modelo de criação artística que se esgotava. Em Brahms, todavia, não se vislumbra qualquer laivo de decadência. A destreza técnica e a sobriedade expressiva que se reconhecem neste seu Op. 73 ajudam a explicá-lo. Brahms não ansiava por um lugar na História. Ele interpretava o seu lugar na História. Encarava a Tradição com uma atitude construtiva, sempre buscando novos caminhos e soluções.
 
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    A Sinfonia N.º 2 de Brahms foi estreada no dia 30 de dezembro de 1877 em Viena, sob a direção do maestro Hans Richter. Seguiram-se apresentações em Leipzig e Hamburgo, sempre com o aplauso do público que exigia a repetição do terceiro andamento. No que respeita à sua «construção», a Segunda Sinfonia apresenta uma estrutura sólida e equilibrada. Aparenta uma simplicidade enganadora, o que se deve à sua consistência formal. Não depende somente dos contrastes ou da exploração de dinâmicas extremas, mas também da maneira como as ideias se entrelaçam com oportunidade e coerência ao longo dos quatro andamentos. Essa confluência entre o arrebatamento expressivo e o rigor formal viriam a projetar-se na produção sinfónica de compositores como Mahler ou Schostakovich.

 

    A obra tem um início algo lúgubre, ao som dos violoncelos. Neste que é o mais longo andamento de todas as sinfonias de Brahms, assiste-se a apontamentos de inesperada penumbra, sobretudo protagonizados pelas trompas e pelos tímpanos, mas também a momentos de triunfo contagiante. Respeitando a tradicional Forma Sonata, reconhecem-se pequenas variações sobre os dois temas melódicos principais, com recurso a transposições e inversões. No segundo desses temas vislumbra-se a muito conhecida canção de embalar «Guten Abend, gute Nacht» que Brahms tinha composto em 1868 (Op. 49/4).

 

    Os violoncelos voltam a destacar-se no início do segundo andamento, com uma melodia onde predominam os desenhos descendentes. O caráter lamentoso que sugere uma interpretação elegíaca irá prevalecer ao longo de todo o tempo, com variações em desenvolvimento, uma maneira engenhosa de explorar o material temático, já que não abandona a Forma Sonata. Pontualmente, o tratamento fugado do tema parece apontar para um clímax, mas mantém sempre a contenção expressiva. Já no terceiro andamento distinguem-se claramente cinco secções. Na prática, é um minueto de ânimo afável que se vê interrompido por duas vezes, pelos ritmos frenéticos de um Trio que se esperaria mais lento. Assemelha-se assim a um Rondó que, apesar da sugestão bucólica das melodias, sempre moldadas em ritmos dançáveis, vê-se pontuado por suspensões enigmáticas. Por fim, um Allegro con spirito que, apesar do ambiente festivo predominante, nunca deixa de introduzir interrupções ambíguas. Impõe-se de início com exuberância, para de seguida confiar protagonismo a diversos instrumentos da orquestra. Com critério cíclico, o tema principal deste último andamento deriva do tema que se ouviu no início do primeiro andamento. Destacam-se os ritmos sincopados que marcam este Finale esfuziante.

 

 

 

Orquestra Metropolitana de Lisboa

Maestro: Pedro Amaral

 

J. Brahms Sinfonia N.º 2, Op. 73

 
 
Quinta-feira, 11 de julho de 2019, Largo de São Carlos
 
 
 
O Lago Wörthersee, Pintura de Marko Pernhart (1824–1871) | Fonte: Wikimedia Commons
 
Tal como as sinfonias de Beethoven com número par, a Segunda Sinfonia de Brahms é por vezes conotada com um período de relaxamento que o compositor se ofereceu após o esforço gigantesco despendido com a sinfonia anterior. Seria então um exercício de escrita descontraído, porventura menos cuidado, em matéria de composição. Mas esta leitura não resiste, sequer, à primeira audição. Ao cabo de uma dúzia de compassos, logo percebemos que é muito mais do que isso. Com ironia, o próprio compositor chamou-lhe «Sinfonia Feliz». Mas também disse, noutra ocasião, que a partitura deveria ter uma orla negra, tal era a melancolia que a trespassava. Em que ficamos?

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Brahms ao piano em 1896 | Pintura de Willy von Beckerath (1868-1938) | Fonte: Wikimedia Commons
 
SOB O SIGNO DE BRAHMS
Após um longo período em que Brahms foi pejorativamente conotado com a ala mais conservadora do século XIX, a importância do seu legado é hoje por de mais evidente. No âmbito da música coral, soube colher frutos na polifonia renascentista e barroca. Em música de câmara e no repertório pianístico, fez ressoar a mais sublime cumplicidade com Schubert e Schumann. Já na música orquestral, seguiu a peugada de Beethoven. Exemplos de diversidade, a primeira e última obras orquestrais do compositor alemão espelham bem as duas últimas vertentes. O primeiro dos seus dois concertos para piano, esboçado em 1854, evoluiu desde uma Sonata para Dois Pianos para uma obra em que o solista se funde com a orquestra. Já em 1887, surgiu o Concerto para Violino e Violoncelo, a sua derradeira partitura com orquestra, ainda que tenha sido escrita dez anos antes de morrer.

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Olivier Messiaen em 1986 | Fonte: Wikimedia Commo
 
As obras musicais Hommage à Messiaen e Modos de Expressão Ilimitada, respetivamente assinadas por Vasco Pearce de Azevedo e Eurico Carrapatoso, coincidem nalguns aspetos. Ambas estão escritas para orquestra de cordas e prestam tributo a Olivier Messiaen (1908-1992), uma figura pioneira que, de maneira audaz, soube fecundar a criação musical com inspirações improváveis, integrando-as na sua própria linguagem. Os dois compositores portugueses escrevem sobre isso, na primeira pessoa.

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