Um Verdadeiro Achado

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Musicália

Um Verdadeiro Achado




Um Verdadeiro Achado
Capa da 1.ª Edição da Segunda Sinfonia de J. Brahms (1878) | Fonte: IMSLP
 
A Segunda Sinfonia de Brahms é bastante mais discreta do que a Primeira. Requer, por isso, um atenção especial. Em muita música alemã da segunda metade do século XIX sente-se a nostalgia provocada por um modelo de criação artística que se esgotava. Em Brahms, todavia, não se vislumbra qualquer laivo de decadência. A destreza técnica e a sobriedade expressiva que se reconhecem neste seu Op. 73 ajudam a explicá-lo. Brahms não ansiava por um lugar na História. Ele interpretava o seu lugar na História. Encarava a Tradição com uma atitude construtiva, sempre buscando novos caminhos e soluções.

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O Lago Wörthersee, Pintura de Marko Pernhart (1824–1871) | Fonte: Wikimedia Commons
 
Tal como as sinfonias de Beethoven com número par, a Segunda Sinfonia de Brahms é por vezes conotada com um período de relaxamento que o compositor se ofereceu após o esforço gigantesco despendido com a sinfonia anterior. Seria então um exercício de escrita descontraído, porventura menos cuidado, em matéria de composição. Mas esta leitura não resiste, sequer, à primeira audição. Ao cabo de uma dúzia de compassos, logo percebemos que é muito mais do que isso. Com ironia, o próprio compositor chamou-lhe «Sinfonia Feliz». Mas também disse, noutra ocasião, que a partitura deveria ter uma orla negra, tal era a melancolia que a trespassava. Em que ficamos?

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Etiqueta do disco da primeira gravação comercializada de Rhapsody in Blue (1924) | Fonte: Wikimedia Commons
 
Rapsódia Americana, foi este o título provisório de Rhapsody in Blue, a obra concertante para piano e orquestra que em 1924 abriu novos caminhos à carreira de George Gershwin e, bem mais importante, também à música estadunidense. Numa época em que o Novo Mundo buscava uma identidade cultural própria, à semelhança do que ocorreu por toda a Europa, o Jazz impôs-se como a mais genuína expressão musical, alastrando-se às rádios, aos discos e às salas de concerto clássicas. Em forma de Rapsódia, e por entre a azáfama dos teatros da Broadway, Gershwin compôs este precioso «caleidoscópio musical da América».

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Franz Joseph Haydn | Gravura de Francesco Bartolozzi datada de 1791 | Fonte: BnF Gallica
 
UM VERDADEIRO ACHADO
 
Em 1961 fez-se uma descoberta extraordinária no Museu Nacional de Praga. Tratava-se da partitura manuscrita do primeiro Concerto para Violoncelo e Orquestra de Joseph Haydn, um obra que permanecera duzentos anos silenciada. Espalhou-se a notícia, e não tardaram as gravações dos mais prestigiados violoncelistas, tais como Jacqueline du Pré ou Mstislav Rostropovich, entre tantos outros. Hoje em dia, é uma obra que se impõe nas programações das salas de concertos de todo o mundo, sempre com a aparente naturalidade do primeiro dia em que foi tocada.
 

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    Do que se tem a certeza, Haydn escreveu dois concertos para violoncelo e orquestra. Um em Dó Maior, datado da primeira metade da década de 1760, e outro em Ré Maior, de 1783. Poderá existir um terceiro concerto cuja partitura se perdeu, e ainda outros dois que lhe são erradamente atribuídos nalgumas publicações. Cerca de vinte anos separam, portanto, a composição daquelas duas obras. A mais recente é unanimemente apreciada como exemplo do estilo clássico no formato Concerto. Já a primeira, vem juntar-se a outros raros concertos – para violino, trompa e cravo –, menos consensuais, mas que permitem conhecer melhor a fase inicial da carreira do músico austríaco. Não evidencia a concisão técnica, a congruência do tratamento temático e a disposição dialética da construção do discurso musical que o tornaram numa das figuras mais influentes de toda Histórica da Música. Permite, no entanto, conhecer os recursos técnicos e artísticos que serviram de base a esse percurso.

 

    Joseph Haydn assumiu as funções de compositor ao serviço do Príncipe de Eszterháza em 1761. Pouco tempo mais tarde, juntaram-se-lhe vários músicos de Viena por si recomendados. Terá sido para esses instrumentistas que compôs concertos que lhes permitiam mostrar as suas capacidades virtuosísticas diante do patrono e de seus convidados. Assim, o violoncelista Joseph Weigl terá estreado este concerto na condição de solista, ainda antes da construção do monumental palacete junto do Lago de Neusiedl e numa altura em que a orquestra da corte seria composta por apenas uma dúzia de músicos contratados ad hoc. Invulgar naquela época, incluía duas trompas e dois oboés que intervinham, fundamentalmente, como reforço dos tuttis orquestrais, e só esporadicamente com linhas independentes. Com uma pretensão virtuosística notória, este concerto ainda espelha o modelo dos concertos grossos do período barroco. Já se vislumbra, porém, a forma sonata monotemática em todos os andamentos, sinal de um instinto inovador cujo tempo de gestação chegara ao fim.

 

Orquestra Metropolitana de Lisboa

Solista: Nuno Abreu (violoncelo)

Maestro: Pedro Amaral

 

J. Haydn Concerto para Violoncelo N.º 1, em Dó Maior, Hob.VIIb:1

 

   
 

 
      
Fonte: www.pxhere.com
 
Licenciado em Composição pela Escola Superior de Música de Lisboa, Bruno Gabirro completou o Mestrado em 2008 na Royal Academy of Music. Foi durante este último período de formação, passado em Londres, que recebeu a encomenda para compor uma obra destinada ao ensemble de cordas Royal Academy Soloists. Nasceu assim a obra Rebel (Chaos), prontamente distinguida com o Premio Eric Coates para Composição.

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Brahms ao piano em 1896 | Pintura de Willy von Beckerath (1868-1938) | Fonte: Wikimedia Commons
 
SOB O SIGNO DE BRAHMS
Após um longo período em que Brahms foi pejorativamente conotado com a ala mais conservadora do século XIX, a importância do seu legado é hoje por de mais evidente. No âmbito da música coral, soube colher frutos na polifonia renascentista e barroca. Em música de câmara e no repertório pianístico, fez ressoar a mais sublime cumplicidade com Schubert e Schumann. Já na música orquestral, seguiu a peugada de Beethoven. Exemplos de diversidade, a primeira e última obras orquestrais do compositor alemão espelham bem as duas últimas vertentes. O primeiro dos seus dois concertos para piano, esboçado em 1854, evoluiu desde uma Sonata para Dois Pianos para uma obra em que o solista se funde com a orquestra. Já em 1887, surgiu o Concerto para Violino e Violoncelo, a sua derradeira partitura com orquestra, ainda que tenha sido escrita dez anos antes de morrer.

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Olivier Messiaen em 1986 | Fonte: Wikimedia Commons
 
As obras musicais Hommage à Messiaen e Modos de Expressão Ilimitada, respetivamente assinadas por Vasco Pearce de Azevedo e Eurico Carrapatoso, coincidem nalguns aspetos. Ambas estão escritas para orquestra de cordas e prestam tributo a Olivier Messiaen (1908-1992), uma figura pioneira que, de maneira audaz, soube fecundar a criação musical com inspirações improváveis, integrando-as na sua própria linguagem. Os dois compositores portugueses escrevem sobre isso, na primeira pessoa.

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