A Segunda Sinfonia de Schumann

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Musicália

A Segunda Sinfonia de Schumann




A Segunda Sinfonia de Schumann
A Peregrinação de Childe Harold | Pintura de Joseph Mallord William Turner (1823) | Fonte: Wikimedia Commons
 
Há grandes diferenças entre o estilo musical de Berlioz e aquele praticado pelos compositores alemães do seu tempo. A clareza das suas orquestrações permite distinguir em cada momento os diferentes timbres instrumentais. Mas também é certo que o compositor francês se deixou fascinar pelos imaginários fantasiosos do primeiro romantismo germânico, tantas vezes contagiado por referências literárias. É o caso de Harold em Itália, uma Sinfonia de 1834 inspirada no poema narrativo de Lord Byron «A Peregrinação de Childe Harold».

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Fotografia Tchaikovsky em Odessa em Janeiro de 1893 | Fonte: Wikimedia Commons
 
Piotr Ilitch Tchaikovsky dirigiu a estreia da Sinfonia N.º 6 no final de outubro de 1893, em São Petersburgo. Morreu nove dias mais tarde, de maneira inesperada, o que contribuiu para as inúmeras alusões extramusicais que surgiram em torno da obra. Tanto mais porque o próprio compositor admitiu a existência de um conteúdo programático subjacente, muito embora nunca o tenha revelado.

Seria redutor, no entanto, resumi-la a um aceno de despedida por parte de um grande músico que pressentiu a morte, e mais ainda, a uma narrativa musical baseada em angústia criativa ou vivências pessoais sofridas.

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A cidade de Hamburgo cerca de 1750 | Pintura Anónima | Fonte: Wikimedia Commons
 
Carl Philipp Emanuel Bach foi o segundo filho de Johann Sebastian, e aquele que teve maior sucesso enquanto compositor. Reputado cravista, assinou um número relativamente pequeno de sinfonias, muito embora seja provável que várias se tenham perdido. As primeiras foram compostas em Berlim ao serviço de Frederico o Grande, sendo a mais conhecida a Sinfonia WQ 178. As restantes datam da década de 1770, quando já vivia em Hamburgo. Em particular, aquelas reunidas no caderno WQ 183 antecipam a subjetividade romântica do século XIX.

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A cidade de Veneza cerca de 1750 | Pintura de Francesco Guardi (1712–1793) | Fonte: Wikimedia Commons
 
Nas primeiras décadas do século XVIII, a cidade de Veneza era referência da moda e das artes. Era visitada pelos seus monumentos, teatros e casas de jogo. O turismo era uma atividade económica em expansão, e a música uma das principais atrações. Nesta vertente, para lá das óperas e das celebrações religiosas da Basílica de São Marcos, seria «obrigatória» uma passagem pela pequena igreja do Ospedale della Pietà, onde Antonio Vivaldi se dava a conhecer. Os seus concertos para dois solistas e orquestra permitem imaginar o aparato sonoro e cénico daqueles eventos.

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Silhueta de Robert Schumann


A SEGUNDA SINFONIA DE SCHUMANN
 

A Sinfonia N.º 2 de Robert Schumann foi durante muito tempo subestimada, no seio do repertório orquestral. Por entre opiniões favoráveis, outras houve que lhe apontaram incoerências formais no primeiro e último andamentos. Com efeito, as expectativas moldadas na tradição clássica não facilitavam a sua aceitação, pois o modo peculiar como Schumann encadeava as ideias desafiava paradigmas. A sua música exige uma escuta liberta de preconceitos, atenta em cada instante a detalhes expressivos que espelham a vida de um artista que compunha como quem escreve um romance, mas sem palavras.

 

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    Quando começou a escrever a Sinfonia N.º 2 Op. 61, no final de 1845, Robert Schumann já havia escrito a Sinfonia N.º 1 Op. 38, a Abertura, Scherzo e Finale Op. 52 e a primeira versão da Sinfonia em Ré Menor, que viria a ser a Sinfonia N.ª 4 Op. 120. Já então era, portanto, um compositor muito experiente em matéria de orquestração. Não é, por isso, prudente contar com qualquer ingenuidade nesse aspeto. Por outro lado, também a instabilidade anímica e os sintomas depressivos que lhe afetaram os últimos dez anos de vida não explicam, por si só, a produção desse período. A este respeito, o primeiro momento crítico aconteceu em agosto de 1844, aos trinta e quatro anos de idade. Só no final do ano seguinte voltaria a compor uma obra de fôlego, precisamente esta Sinfonia N.º 2, que esboçou em três semanas. Quando iniciava a orquestração, no início de 1846, sofreu uma recaída e teve que adiar a conclusão da obra. O medo da loucura passou a dominar o seu pensamento. Coincidiu, portanto, com um momento particularmente difícil, no qual a insegurança deverá ter imperado em muitas ocasiões. Apesar de tudo, o ânimo que prevalece nesta sinfonia não é depressivo. Em vez disso, assiste-se a um ímpeto criativo que sugere uma disposição combativa e até mesmo triunfal.

 

    O musicólogo Anthony Newcomb escreveu em 1984 um artigo que nos desafia a escutar esta sinfonia sem atender às questões anteriores. Defende que a «lógica criativa» de Schumann difere daquela que predominava em meados do século XIX. Divergia do status quo, mas não era disfuncional, e menos ainda absurda. À maneira de uma novela, dispunha as ideias musicais sem cuidar de constrangimentos formais. Não traduzia episódios concretos da sua vida, mas «retratava» emoções que vivera. Assiste-se assim a uma evolução musical baseada em sentimentos e estados de espírito, blocos expressivos que se entrelaçam em processos dinâmicos. Advém daqui a tensão que se sente entre uma dimensão poética despojada e os rigores técnicos que atravessam qualquer obra de arte. Há, por isso, que prestar atenção ao despontar das ideias e acompanhar incondicionalmente o percurso de cada uma delas. Se se entender cada novo motivo como uma personagem que interage com outras, tornam-se diferentes os contextos sonoros que vão surgindo, aparentemente sem nexo formal.

 

    De início ouve-se uma fanfarra distante, com os metais da orquestra, um elemento solene que reaparece pontualmente. Sobrepõe-se o som velado das cordas, num enredado contrapontístico que empresta uma postura reflexiva a este princípio de sinfonia. É um prólogo que preconiza o que se segue, mas que não se confina ao propósito de uma introdução, já que é a partir dele que flui, sem interrupção, a atitude enérgica e combativa deste primeiro andamento, no qual a inconstância expressiva não favorece uma sensação de unidade. Já no segundo andamento, onde predominam os ritmos sincopados, o protagonismo é confiado às cordas, com uma escrita obstinada que contribui decisivamente para um ambiente revolto e exuberante, por duas vezes interrompido pela galantaria dos Trios. E porque é sobre contrastes que se constrói esta sinfonia, o andamento lento é pleno de intimismo e contida comoção. Curiosamente, é a filigrana orquestral que aqui garante o efeito melancólico deste longo terceiro andamento. Por último, o tão criticado Finale apresenta-se como uma das páginas sinfónicas mais bem conseguidas de todo o repertório romântico. Num registo de triunfo e aclamação, congrega os materiais que se ouviram anteriormente, à maneira da Quinta Sinfonia de Beethoven, com a qual esta obra já foi comparada. A música prossegue, consciente de ter desafiado os ensinamentos daquele antecessor. Com irónica deferência, apresenta pelo meio a variação de uma melodia emprestada de uma canção do próprio Beethoven. Nessa canção, que encerra o Ciclo «A Amada Distante» Op. 98, canta-se «Aceita, pois, estas canções».

 

Orquestra Metropolitana de Lisboa

Solista: Joana Cipriano (viola)

Maestro: Nuno Coelho

 

H. Berlioz Harold em Itália, Op. 16, H. 68

R. Schumann Sinfonia N.º 2, Op. 61

 

Sábado, 25 de maio de 2019, Teatro Thalia

 

 

 
      
Edward Elgar em 1919 | Desenho de William Rothenstein | Fonte: Wikimedia Commons
 
Em 1957, escrevia-se na reputada revista Music and Letters que a música de Edward Elgar estava «um pouco fora de moda». Celebrava-se então o centenário do nascimento do compositor inglês. Deste então, essa avaliação perdeu o sentido. Hoje, as suas duas sinfonias, a oratória O sonho de Gerontius, o estudo sinfónico Falstaff e os concertos para violino, são obras de referência no repertório orquestral. Junta-se-lhes ainda o Concerto para Violoncelo, uma composição que neste ano de 2019 celebra, também ela, o seu centenário.

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Franz Schubert em 1821 Desenho de Kupelwieser Leopold | Fonte: BnF Gallica

No primeiro dia de 1839 Robert Schumann visitou por cortesia a casa do irmão de Franz Schubert, em Viena – o compositor austríaco tinha morrido havia mais de dez anos. Poucos dias mais tarde escreveu assim, numa carta dirigida à Breitkopf & Härtel, uma editora sediada em Leipzig: «… Vi com estupefação os tesouros que ele guarda. Encontram-se lá… quatro ou cinco sinfonias…». Uma delas era a Sinfonia em Dó Maior, a mesma que ficou mais tarde conhecida como «A Grande».

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Carta de Schubert datada de março de 1824 em que escreveu que se preparava para compor uma grande sinfonia | Fonte: Wikimedia Commons
 
O historial da numeração das sinfonias de Schubert é confuso. Em parte, isso resulta da circunstância de terem sido publicadas postumamente e de haver manuscritos que permaneceram inacabados. A sinfonia «A Grande», que mais frequentemente é acompanhada pelo número 9, também aparece, por vezes, indicada com os números 7, 8 e até 10.

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