Um Scherzo Diabólico

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Musicália

Um Scherzo Diabólico


Sinfonia N.º 4 de Mahler aborda com desassombro o assunto da morte



Um Scherzo Diabólico
Gustav Mahler em 1898 / Fonte: Wikimedia Commons
 

A QUARTA DE MAHLER

A Quarta Sinfonia de Gustav Mahler anuncia o período de maturidade do compositor. Não se pode dissociá-la das sinfonias anteriores, mas distingue-se em múltiplos aspetos.

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A canção «Das himmlische Leben» («A vida celestial») preenche o último andamento da 4.ª Sinfonia de Mahler. É ponto de partida e ponto de chegada, a «razão de ser» daquela obra.

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O compositor Beat Furrer | Foto de David Furrer (2014)

 
As ideias apresentam-se muitas vezes por intermédio do recurso às imagens. Uma vez aí chegados, essa abstração visual pode transcender a uma dimensão sonora absolutamente indizível. Parece ter sido esse passo além que Beat Furrer, compositor suíço radicado na Áustria há longos anos, deu na obra intitulada «Nero su Nero» («Preto Sobre Preto»), a qual fez estrear na Konzerthaus de Viena em junho do ano passado. Trata-se de uma partitura orquestral que se aventura por entre as ténues gradações da cor preta, com um estilo de escrita mergulhado em sugestões de movimento difusas, delicado e eminentemente sensorial.

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Arnold Böcklin (1827–1901), «Auto-retrato com a Morte tocando violino» (1872) / Fonte:Wikimedia Commons

 
UM SCHERZO DIABÓLICO
 
O poema «A vida celestial», sobre o qual Mahler escreveu a canção que preenche a totalidade do último andamento da Sinfonia N.º 4, percorre a visão infantil de uma vida angelical. Mas não se trata de uma apropriação inocente. A composição aborda com desassombro o assunto da morte. O relato de uma criança acerca das imensas maravilhas que a rodeiam – é um quadro que se reveste de uma encantadora inocência. Porém, quando tais palavras são proferidas no céu, sob o olhar atento de São Pedro, a candura dá lugar a diferentes matizes.
 
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    O poema «A vida celestial», sobre o qual Mahler escreveu a canção que preenche a totalidade do último andamento da Sinfonia N.º 4 percorre a visão infantil de uma vida angelical. Canta-se e dança-se. É certo que são sacrificados cordeirinhos para se comer a carne, e que se bebe vinho. Mas abunda a fruta e os legumes, e os pratos de peixe são bem cozinhados. Até na música se nota a diferença – «Não existe música na Terra que se compare à nossa».

    Eis aqui a substância poética que levou o compositor austríaco a recuperar em 1899 a canção que havia composto anos antes sobre estes cinco versos retirados de uma coletânea de poesia popular publicada no início do século XIX e intitulada «A trompa mágica do rapaz», tomando-a como motivo essencial dos quatro andamentos da sua sinfonia. As crianças de que trata não se encontram entre os vivos. Com placidez, manifesta ironia e algum arrebatamento, esta obra oferece-nos música de outro mundo, mas enfrenta com desassombro a ideia da morte. Naquela época a mortalidade infantil era uma realidade bastante presente. O próprio Mahler perdeu vários irmãos ainda em tenra idade, e a sua primeira filha viria a morrer em 1907, com apenas seis anos de idade. Este assunto era, portanto, entendido de maneira bastante diferente da que conhecemos hoje.

    Mahler só conheceu Alma Schindler, sua futura esposa, em novembro de 1901, por altura da estreia da sinfonia. Ela não acompanhou, portanto, o processo criativo. Porém, revelou mais tarde que o 2.º andamento reporta ao tema da morte, chegando a sugerir explicitamente ter sido inspirado numa pintura de Arnold Böcklin.

 

Orquestra Sinfónica Metropolitana
Solista: Alexandra Bernardo (soprano)
Maestro: Reinaldo Guerreiro

 

Gustav Mahler Sinfonia N.º 4

 

Sexta-feira, 15 de março de 2018, Teatro Aveirense

Sábado, 16 de março de 2018, Teatro Thalia

                  
A propósito da Sinfonia N.º 4, Mahler escreveu: «Pense no azul indiferenciado do céu, o qual é mais difícil de apreender do que qualquer variação ou contraste entre tons diferentes. Essa é a cor fundamental desta obra.»

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A realizadora Teresa Villaverde
 
O novo filme de Teresa Villaverde resulta de um raro desafio: o de produzir uma obra cinematográfica para ser projetada em simultâneo com a interpretação ao vivo de Six Portraits of Pain, de António Pinho Vargas. Apresenta-se assim reinventada uma das obras mais conhecidas do compositor português. Estreada em 2005, a partitura percorre uma reflexão em torno da melancolia e da angústia no processo de criação artística.

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Fagote do Século XVIII / Museu da Música de Barcelona | Fonte: Wikimedia Commons
 
Os estilos musicais habitam mundividências que lhes são próprias. Identificam formas de ser e pensar. Participam na partilha comum e na dimensão introspetiva individual. Uma vez arrancados da sua origem, reinventam-se na relação com novas formas de existência. É por isso que, hoje em dia, escutar lado a lado dois concertos para fagote, separados por escassas quatro décadas no século XVIII e pelos nomes de Antonio Vivaldi e Johann Christian Bach, não é bastante para viajar no tempo. Ainda assim, permite provar um pouco do que distinguia os artifícios do barroco veneziano, conotados com os Antigos Regimes, e a «nova» simplicidade centro-europeia, de inspiração iluminista.

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