De Vivaldi a J. C. Bach

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Musicália

De Vivaldi a J. C. Bach




De Vivaldi a J. C. Bach
O pesadelo | Pintura de Johann Heinrich Füssli, 1781 | Fonte: Wikimedia Commons
 
No âmbito das artes, a racionalidade e ponderação do Iluminismo setecentista foi subitamente perturbada pelo movimento estético que se denominou «Sturm und Drang». O individualismo, a inquietação, as emoções, a dúvida, a ambiguidade, a liberdade… A expressão destas ideias por intermédio da música revelou-se como um desafio fascinante para várias gerações de músicos, começando por Johann Christian, Haydn e Mozart. Foi percursora da afetação romântica do século seguinte.

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Pôr-do-sol | Fonte: www.pxhere.com
 
Richard Strauss compôs mais de duzentas. Ao fim das «Quatro Últimas Canções» conseguiu um silêncio e uma serenidade de encher o peito. Foi em 1948, aos 84 anos de idade, que completou este breve ciclo temático onde enfrentou com despudor o assunto da Morte, evocando-a na sua expressão mais sublime, como estágio da existência propício a uma reflexão contemplativa sobre a própria Vida. A entoação dolente da voz soprano deseja com ardor o retorno da primavera. Projeta a fadiga e o descanso na descrição de um jardim outonal. Mergulha num sono eterno e livre, diante de um céu que escurece. Diz adeus às cotovias e ao perfume do ar, numa paz profunda e tranquila.

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Ilustração de uma cena de Ato IV de Macbeth | Pintura de Henry Fuseli (1793) | Fonte: Wikimedia Commons
 
Na segunda metade da carreira, Richard Strauss viu a sua reputação ser associada a um romantismo ultrapassado e decadente. Mas antes disso, tinha-se distinguido com um estilo de escrita orquestral vigoroso e dilacerante, inspirado em compositores como Wagner e Liszt, nos domínios da Ópera e do Poema Sinfónico. Neste último género, Macbeth foi ponto de partida. Composto entre 1886 e 1888, pode entender-se como manifesto de emancipação relativamente à tradição mais conservadora do século XIX.

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Fagote do Século XVIII / Museu da Música de Barcelona | Fonte: Wikimedia Commons


DE VIVALDI A J. C. BACH

 

Os estilos musicais habitam mundividências que lhes são próprias. Identificam formas de ser e pensar. Participam na partilha comum e na dimensão introspetiva individual. Uma vez arrancados da sua origem, reinventam-se na relação com novas formas de existência. É por isso que, hoje em dia, escutar lado a lado dois concertos para fagote, separados por escassas quatro décadas no século XVIII e pelos nomes de Antonio Vivaldi e Johann Christian Bach, não é bastante para viajar no tempo. Ainda assim, permite provar um pouco do que distinguia os artifícios do barroco veneziano, conotados com os Antigos Regimes, e a «nova» simplicidade centro-europeia, de inspiração iluminista.
 
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    O Fagote não tem um repertório solístico abundante. No início do século XVIII era quase exclusivamente utilizado no reforço das notas graves. Mas foram então introduzidas importantes inovações na construção do instrumento, as quais alargaram significativamente as suas capacidades técnicas e expressivas. Ainda assim, seria mais evidente a escolha de um instrumento mais agudo e corrente, por parte dos compositores, sobretudo o violino. Curiosamente, António Vivaldi compôs mais de trinta concertos para fagote. A maioria terá sido destinada ao Ospedalle della Pietà, onde haveria algum(a) fagotista virtuoso(a). Com efeito, distinguem-se pela elevada dificuldade técnica, mais ainda se nos lembrarmos que os instrumentos da época não tinham a mesma precisão dos fagotes atuais. No caso do RV 484, para lá da vertigem dos arpejos, as passagens líricas são extremamente amplas e pejadas de ornamentos, ao que se acrescenta os rasgos tempestuosos do último andamento. Terá sido um obra de maturidade, compostas entre finais dos anos 1720 e 1741, um período em que o músico manteve um vínculo mais flexível com aquela instituição, de maneira a poder viajar. É o Concerto para Fagote de Vivaldi mais conhecido nos nossos dias.

 

    Por seu turno, o filho mais novo de Johann Sebastian Bach, Johann Christian, compôs somente dois concertos para fagote, já no início da década de 1770. À semelhança daqueles de Vivaldi, estruturam-se em três andamentos, numa disposição rápido-lento-rápido. Mas há diferenças notórias, desde logo na duração, mais extensa. Muito embora não existam provas irrefutáveis, é provável que tenham sido compostos para o fagotista Georg Wenzel Ritter (1748-1808), músico da orquestra da corte de Mannheim entre 1764 e 1778. Apesar de, à época, J. C. Bach estar radicado em Londres, trabalhou intensamente com Mannheim entre 1772 e 1775, estreando duas óperas, entre outros projetos de grande dimensão. Já depois da morte do compositor, Ritter mudou-se para Berlim. E foi precisamente na Biblioteca Real de Música, em Berlim, que permaneceram guardadas as partituras. No caso do Concerto em Mi Bemol Maior, as partes orquestrais são praticamente iguais às de uma outra obra do mesmo compositor, a Sinfonia Concertante (para dois violinos, violoncelo e orquestra) em Mi Bemol Maior, W C42. É provável que tenha sido esta a versão original, em virtude da estrutura formal da composição. A brevidade da secção final do primeiro andamento não corresponde ao formato habitual de um concerto solístico, do qual se exigiria mais oportunidades para o solista brilhar. Já o Largo ma non tanto, é um dos andamentos lentos mais longos da autoria de J. C. Bach, e também um dos mais comoventes, com destaque para o protagonismo pleno do fagote. Por fim, um Minueto, com generosa graciosidade, sem repetições, ou sequer a secção lenta contrastante de um Trio. Comparando com os concertos de Vivaldi, apresenta grande previsibilidade na condução do discurso, com melodias sóbrias, próximas da simplicidade das canções, menor impetuosidade rítmica e manifesta clareza nas intervenções das diferentes partes, evitando sempre os entrelaçados contrapontísticos. Descreve-se assim o estilo pré-clássico de que J. C. Bach foi pioneiro, o estilo Galante. O estilo Sturm und Drang, mais impetuoso, emergia simultaneamente noutras obras do mesmo compositor.

 

 

Orquestra Metropolitana de Lisboa
Solista: Rui Lopes (fagote)
Maestro: Nicholas Kraemer

 

Sábado, 16 de fevereiro de 2018, Museu Nacional de Arte Antigal

 

A. Vivaldi Concerto para Fagote, RV 484
J. C. Bach Concerto para Fagote, W. C82

 

 
      
Johann Christian Bach em 1776 | Pintura de Thomas Gainsborough | Fonte: Wikimedia Commons
 
Apesar da unanimidade que hoje existe em torno do nome de Johann Sebastian Bach, entre os músicos da família Bach, foi o seu filho Johann Christian quem teve maior reconhecimento em tempo de vida. A sua obra testemunha a transição que, em matéria de música, conduziu o Estilo Barroco Tardio, coroado por figuras como seu pai e Vivaldi, ao Classicismo vienense. Para lá da afinidade entre as sinfonias de J. C. Bach e as primeiras de Mozart, o ímpeto expressivo que se reconhece em obras como a última sinfonia do caderno Op. 6 projeta-se nas sinfonias de maior fôlego do músico de Salzburgo, tais como a N.º 25, celebrizada em 1984 no filme de Miloš Forman.

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Paisagem com ribeiro, pintura de Zdenka Braunerová (1858–1934) | Fonte: Wikimedia Commons
 
As sonoridades rústicas da Sinfonia N.º 8 de Dvořák assentam em intervenções instrumentais características, padrões rítmicos simples e dançáveis, uma fluência melódica invulgar e uma disposição bem humorada que não disfarça a utilização de recursos eminentemente teatrais. Esta aparência espontânea distingue-se do rigor formal da sinfonia anterior, dando azo a comparações com o pendor bucólico da segunda sinfonia de Brahms e da quarta de Mahler. Junta-se aqui Beethoven ao cenário, e poderíamos chamar-lhe a Sinfonia Pastoral do músico checo.

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Mahler em 1898 / Fonte:Wikimedia Commons
 

A QUARTA DE MAHLER

A Quarta Sinfonia de Gustav Mahler anuncia o período de maturidade do compositor. Não se pode dissociá-la das sinfonias anteriores, mas distingue-se em múltiplos aspetos.

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