Com cara nova. Ite, missa est…

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Musicália

Com cara nova. Ite, missa est…




Com cara nova. Ite, missa est…
Frédéric Chopin tocando no salão dos Radziwiłłs em 1829 (pintura de Henryk Siemiradzki, 1887) | Fonte: Wikimedia Commons
 
Os concertos para piano de Chopin sempre gozaram de grande popularidade. Mas também têm sido objeto de críticas depreciativas. Sobretudo, estas opiniões focam aspetos relacionados com a construção formal e com a orquestração. Alheiam-se, todavia, de algo essencial: o impacto da vertente performativa como conteúdo estético. Chopin nunca quis escrever sinfonias. Quis, porventura, exibir a sua genialidade, mas sobretudo afetar intensamente o ouvinte com a sua presença. Nesse sentido, foi um verdadeiro mestre da Sedução.

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Frédéric Chopin | Moeda Comemorativa, 50 zloty (1970-1972)
 
É comum chamar-se a Frédéric Chopin «O Poeta do Piano». Mas também é frequente apresentá-lo como símbolo da identidade nacionalista polaca. Esta é uma das dualidades que tornam a sua figura tão carismática. Por um lado, evoca-se a delicada beleza das muitas obras que compôs para piano solo, os detalhes tímbricos e os requintados fraseios que, parecendo supérfluos, são essenciais. Por outro, exalta-se a bravura da expressão ideológica e política no seu legado. Os dois concertos para piano e orquestra, nos quais tanto se empenhou por altura da transição entre Varsóvia e Paris, ilustram exemplarmente as duas vertentes.

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Schubert com cerca de 17 anos | Pintura de Josef Abel (1764–1818) | Fonte: Wikimedia Commons
 
A Quarta Sinfonia distingue-se entre as primeiras seis escritas por Schubert por não assumir uma disposição manifesta de entretenimento e por ser mais despojada, no que respeita à expressão dos afetos. Traduz-se, assim, numa evolução do estilo do compositor austríaco.

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Viajante Sobre o Mar de Névoa (Pintura de Caspar David Friedrich, 1818) | Fonte: Wikimedia Commons
 
O sentimentalismo artificioso e a afetação emocional intensa tornaram-se recursos dramáticos abundantes no domínio das artes, por vezes excessivos. É certo que são muito eficazes na captação da atenção do espectador, mas provocam frequentemente reações de repulsa e saturação. Afinal, são questões de afeto que dependem, em grande medida, da predisposição e disponibilidade de cada um. Assim, para lá de fascínios e encantamentos, a música de Chopin é liminarmente rejeitada por muitos. Nesses casos, é impossível apreciar os preciosos detalhes que a fizeram tão radicalmente moderna e original no seu tempo.

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Frédéric Chopin em 1833 | A partir de retrato de Pierre-Roch Vigneron | Fonte: BnF Gallica
 
O Concerto para Piano N.º 2 de Frédéric Chopin foi composto entre o final de 1829 e os primeiros meses de 1830. É uma obra de juventude em que um pianista virtuoso se aventura para lá dos limites do seu instrumento. Mas, desde logo, revela a mão certeira de um dos maiores talentos da História da Música. O piano não confronta a orquestra com sobreposições complexas e desafiantes. Em vez disso, ambos as partes exploram requintes sonoros de grande beleza, desenhos melódicos fascinantes que valem por si mesmos e que se encadeiam sem mácula.

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Daguerreótipo de Józef Michał Poniatowski (1816-1873) | Fonte: BnF Gallica
 
COM CARA NOVA. ITE, MISSA EST...
 

«Na partitura da Missa em Fá Maior [de J. M. Poniatowski], dedicada ao Rei de Portugal Dom Luís I, está presente a influência dos mestres do bel canto italiano, tais como Gaetano Dionizetti e Gioacchino Rossini. Todavia, também é possível reconhecer a proximidade com Georg Friedrich Händel (nos momentos enérgicos com técnicas fugadas, ou no modo como o coro intervém) e com o próprio estilo romântico. A conceção grandiosa da forma musical cruza-se com o lirismo religioso. A imponência das linhas vocais harmoniza-se com um atmosfera contemplativa e comovedora. A narrativa dos sons foca-se em palavras-chave que traduzem a mensagem da Missa.»

 

Excerto do texto «Com cara nova. Ite, missa est…»

assinado por Małgorzata Janicka-Słysz

 
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Com cara nova. Ite, missa est…

    Texto de Małgorzata Janicka-Słysz

 

    Quando Wolfgang Amadeus Mozart compôs a Missa da Coroação em Dó Maior tinha 23 anos de idade. Pouco tempo antes, numa das cartas que escreveu ao pai, vangloriava-se de conseguir apreender qualquer estilo musical e de reproduzi-lo criativamente. Quando Gioacchino Rossini completou a Pequena Missa Solene tinha 71 anos. Escreveu essa obra, conhecida como «o último pecado mortal», após dois anos de silêncio criativo durante os quais se dedicou com paixão à arte culinária. Quando em 1867 Michał Ksawery Franciszek Poniatowski compôs a Missa em Fá Maior, já havia ultrapassado a idade de 50 anos. Era então conhecido quer como artista quer como político-diplomata. Na sua vida estavam de igual modo presentes a arte dos sons e a arte de servir a pátria.

    Este filho do sobrinho do último rei da Polónia, Stanisław August Poniatowski, tinha pelo menos três talentos distintos: apresentava-se como cantor com a sua bela voz de tenor, era compositor e exercia a diplomacia política. Nasceu a 20 de fevereiro de 1816 em Roma e morreu a 3 de julho de 1873 em Londres – em 2016 assinalou-se o 200.º aniversário do seu nascimento. Poniatowski recebeu uma cuidada educação musical por parte de professores italianos. Atuou em Florença e Bolonha, e as suas óperas foram representadas no La Scala de Milão – merece a pena aqui sublinhar que a sua canção The Yeoman's Wedding Song (editada em Londres em 1871) mantém-se ainda hoje popular. Também é interessante que o músico fosse igualmente dotado para a matemática. Quem sabe, esse talento permite explicar a harmonia e o equilíbrio de proporções nas suas composições musicais.

    É impressionante a importância da atividade do príncipe Poniatowski enquanto diplomata, de que são exemplos a representação da Comunidade de Florença na Câmara dos Deputados durante a Primavera dos Povos ou o seu desempenho parlamentar enquanto representante da Toscânia em Bruxelas e em Londres. Em 1853 mudou-se para Paris, onde obteve em 1854 a nacionalidade francesa. No período compreendido entre 1862 e 1881, sendo um protegido de Napoleão III, viajou como senador em diferentes missões diplomáticas à Argélia, Japão e China. Depois da derrota do Imperador seguiu-lhe os passos, exilando-se na Inglaterra.

    A verdadeira paixão de Józef M. K. F. Poniatowski foi a ópera e o seu elemento indissociável, o bel canto, que procurou também estender à música sacra: na Messe solennelle, na Missa em Fá Maior (cujo fragmento foi pela primeira vez interpretado em Londres, no ano seguinte à sua morte) e no Stabat Mater de 1863. Porém, o núcelos mais representativo da sua obra consiste nas suas doze óperas, coroadas pela que é mais vezes interpretada, Don Desiderio, de 1840.

    Na partitura da Missa em Fá Maior, dedicada ao Rei de Portugal Dom Luís I, está presente a influência dos mestres do bel canto italiano, tais como Gaetano Dionizetti e Gioacchino Rossini. Todavia, também é possível reconhecer a proximidade com Georg Friedrich Händel (nos momentos enérgicos com técnicas fugadas, ou no modo como o coro intervém) e com o próprio estilo romântico. A conceção grandiosa da forma musical cruza-se com o lirismo religioso. A imponência das linhas vocais harmoniza-se com um atmosfera contemplativa e comovedora. A narrativa dos sons foca-se em palavras-chave que traduzem a mensagem da Missa.

    A música de Poniatowski perdeu-se nos labirintos da História. Felizmente, foi objeto de investigação por parte de dois musicólogos, os professores Irena Poniatowska e Ryszard Daniel Golianka, despertando assim o interesse junto dos músicos. Temos hoje novas interpretações das suas obras, que as devolvem assim ao público. Merecem ainda agradecimento tanto a Associação da Música Polaca, pela apresentação das obras de Poniatowski no Festival da Música Polaca, como os promotores da estreia em Inglaterra da Missa em Fá Maior, em particular Marek Stella-Sawicki.

    Escutei com grande interesse a versão orquestral desta obra, originalmente destinada a vozes solistas, coro e acompanhamento de órgão ou piano. Tanto mais porque as óperas de Poniatowski se distinguem não somente pela singularidade melódica mas também pelas orquestração vigorosa: o acompanhamento para órgão ou piano convida à sua transposição para orquestra.

    A música do príncipe diplomata inscrevia-se no contexto das transformações que se registaram naquele período da História da Música e que influenciaram o processo da emancipação do som. Em 1844 foi publicado o Tratado de Instrumentação e de Orquestração de Hector Berlioz, autor francês que num dos seus ensaios mencionou com entusiasmo a ópera de Poniatowski Pierre de Médicis, representada em Paris em 1860.

    Graças à dupla Maciej Jabłoński e Sebastian Perłowski, a Missa em Fá Maior regressa agora à memória coletiva, recebendo uma segunda vida, paralela e inspiradora. A tradição abraça assim a contemporaneidade. De outro modo, pode dizer-se que a música é sempre contemporânea, sempre presente na sua beleza e na sua mensagem.

 

 

Polónia: O Século da Independência


Orquestra Metropolitana de Lisboa

Maestro: Sebastian Perłowski

J. M. Poniatowski Missa em Fá Maior (orq. S. Perłowski e M. Jabłoński)

 

 
 
 
Piano Broadwood & Sons de 1827 | Fonte: Wikimedia Commons
 
Quando Frédéric Chopin chegou a Paris, em setembro de 1831, já tinha apresentado o Concerto em Mi Menor em Vratislávia, Viena e Munique. Seguiu-se a Salle Pleyel, em fevereiro de 1832, onde a receção foi de tal modo favorável que se abriram as portas dos salões parisienses mais bem frequentados.

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Folheto de propaganda da participação das tropas aliadas na Primeira Grande Guerra Mundial | Fonte: BNP
 

Não é fácil enquadrar estilisticamente o Concerto para Violino e Orquestra de Luís de Freitas Branco, quer no âmbito das tendências que à época coexistiam no panorama musical europeu quer do percurso criativo do próprio autor. Datado de 1916, nele convergem o formalismo clássico, o virtuosismo de inspiração romântica e técnicas de escrita herdeiras das vanguardas oitocentistas. Ancorada numa sólida erudição do passado, é uma obra pioneira do movimento neoclássico que dava então os primeiros passos.

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Sem título, Pintura de Amadeu de Sousa Cardoso (1913) | Fonte: Wikimedia Commons
 

Os Concertos para Violino e Orquestra são bastante raros nos catálogos dos compositores portugueses. Excluindo as décadas mais recentes, só se destacam aqueles de Armando José Fernandes e de Luís de Freitas Branco. Com efeito, a maioria das obras escritas para este formato teve origem na Europa Central, Rússia e Itália. Inclusivamente em França, exceptuando Saint-Saëns, o género não mereceu atenção comparável. Esta circunstância bastaria para valorizar a composição de Freitas Branco aqui focada, mas ela própria tem argumentos que «falam» por si. 

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Assinatura de Franz Schubert
 

Schubert completou a Quarta Sinfonia em 1816, quando ainda questiona o rumo da sua vida, profissional e não só. Beethoven publicara a primeira sinfonia com trinta anos de idade, e Brahms fá-lo-ia aos quarenta e quatro. Schubert não publicou nenhuma, mas com vinte e um já havia composto seis.  

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Franz Schubert | Pormenor da pintura de Wilhelm August Rieder datada de 1875 e realizada a partir de uma sua aguarela de 1825 | Fonte: Wikimedia Commons
 
A Sinfonia N.º 4 de Franz Schubert foi intitulada de «Trágica» pelo próprio compositor, já depois de concluída. Todavia, o sentimento que prevalece após a audição dos quatro andamentos não se espelha em qualquer ideia de tragédia.

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