Sinfonia Reforma

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Musicália

Sinfonia Reforma




Sinfonia Reforma
Brahms ao piano em 1896 | Pintura de Willy von Beckerath (1868-1938) | Fonte: Wikimedia Commons
 
BRAHMS: ÚLTIMAS PÁGINAS
Terminadas as cerimónias fúnebres de Clara Schumann, em maio de 1896, J. Brahms percorreu os vinte quilómetros que separam Bad Honnef da cidade de Bona para descansar uns dias em casa de amigos. Um dos presentes, Alwin V. Beckerath, relatou mais tarde, em carta dirigida ao célebre crítico Eduard Hanslick, um episódio que aí se passou. No dia seguinte à sua chegada, Brahms anunciou que gostaria de partilhar composições novas num momento sossegado. Ao piano, revelou então as Quatro Canções Sérias, o Op. 121 que é normalmente apresentado como a sua derradeira obra. Mas mostrou algo mais. Baseado em hinos luteranos relacionados com o tema da Morte, tocou uma série de Prelúdios Corais para órgão que só vieram a ser publicados postumamente, como Op. 122. Disse ainda ter escrito essas páginas para o seu próprio aniversário. Todos perceberam a mensagem.


Capa da 1.ª Edição da Segunda Sinfonia de J. Brahms (1878) | Fonte: IMSLP
 
A Segunda Sinfonia de Brahms é bastante mais discreta do que a Primeira. Requer, por isso, um atenção especial. Em muita música alemã da segunda metade do século XIX sente-se a nostalgia provocada por um modelo de criação artística que se esgotava. Em Brahms, todavia, não se vislumbra qualquer laivo de decadência. A destreza técnica e a sobriedade expressiva que se reconhecem neste seu Op. 73 ajudam a explicá-lo. Brahms não ansiava por um lugar na História. Ele interpretava o seu lugar na História. Encarava a Tradição com uma atitude construtiva, sempre buscando novos caminhos e soluções.
 
Parada militar na Opernplatz em Berlim (1822) | Pintura de Franz Krüger (1797-1857) | Fonte: Wikimedia Commons
 
SINFONIA REFORMA
 
Ao longo da carreira, foram várias as ocasiões em que Mendelssohn transportou para a criação artística experiências da sua vida pessoal. Os exemplos mais evidentes são as Sinfonias Italiana e Escocesa, assim como a Abertura As Hébridas, três obras inspiradas numa viagem realizada pelo compositor por volta de 1830, o mesmo ano da Sinfonia N.º 5. Abre-se assim caminho para interpretações especulativas acerca de um pretenso «subtexto» desta última, muitas delas contraditórias.
 
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    A Sinfonia Reforma de Mendelssohn representa bastante mais do que uma sinfonia. Foi composta para celebrar a Confissão de Augsburgo, a profissão de fé da Igreja Luterana. Vinda da parte de um músico com tão ilustre ascendência judaica e recentemente convertido ao luteranismo, tem proporcionado ao longo dos tempos as mais surpreendentes interpretações. É difícil imaginar as contingências de um processo criativo tão delicado para a identidade de um jovem com cerca de vinte anos. A música está aí, para que a apreciemos enquanto tal. Mas é também um testemunho histórico que ilustra o contexto social e político da Europa Central de há dois séculos atrás.

    Tem início com uma introdução lenta moldada na tradição polifónica renascentista, facilmente conotável com a prática musical contrarreformista. Mais à frente, cita um curto motivo ascendente que replica o célebre «Ámen de Dresden», que teve origem na corte católica de Dresden em finais do século XVIII e se disseminou mais tarde pelos cultos católico e protestante – Wagner utilizou este mesmo motivo na ópera Parsifal. A partir daqui, há quem defenda que o entrelaçado contrapontístico que se segue pode ser programaticamente interpretado como o confronto entre as doutrinas católica e protestante, da qual sai vencedora a última, ao som do hino coral de Lutero Ein’ feste Burg is unser Gott (Uma fortaleza poderosa é o nosso Deus) que se ouve ostensivamente no último andamento. Na mesma linha, a anterior leitura desafia a atribuição de significados aos segundo e terceiro andamentos. Há quem ouça na jovialidade do Scherzo uma vivência idílica anterior à conversão. Outros reconhecem no andamento lento uma melodia tradicional judaica que poderia eventualmente traduzir uma angústia pessoal diante da subjugação de uma sociedade opressora. Já a ligação entre o terceiro e último andamentos – sem pausa – representaria, segundo alguns, a conversão pacífica dos Novos Cristãos.

    Havendo leituras para todas as sensibilidades, é inevitavelmente uma obra que não reúne consenso e gera controvérsia. A reserva mental de um compositor que oculta mensagens subliminares na partitura, é uma possibilidade. Uma profissão de fé despojada, seria outra. Pode também ser uma sinfonia verdadeiramente ecuménica, pelo modo como incorpora melodias das liturgias católica e protestante com referências ao judaísmo. E se mais não for, resulta sempre num momento de contemplação estética de grande efeito.

 

 

Os 500 Anos da Reforma

 

Orquestra Metropolitana de Lisboa

Solista: José Teixeira (violino)

Maestro: Michael Zilm

 

J. Brahms Cinco Prelúdios Corais, do Op. 122 (arr. Paul Angerer)

F. Chaves Concerto de Sombras, para violino e orquestra (estreia absoluta)

F. Mendelssohn Sinfonia N.º 5, Op. 107, Reforma

 

 
 
 
 
A casa dos Mendelssohn em Berlim, na Leipziger Strasse | Fotografia ca. de 1900 | Fonte: Wikimedia Commons
 
De origem judaica, a família Mendelssohn converteu-se ao luteranismo nos primeiros anos do século XIX com o intuito de obter um estatuto de cidadania mais favorável e de se resguardar do antissemitismo que florescia na cidade de Berlim. Foi então que surgiu o segundo apelido, Bartholdy. A 5.ª Sinfonia do jovem compositor Felix Mendelssohn-Bartholdy, posteriormente intitulada Reforma, celebrava em 1830 o tricentenário da Confissão de Augsburgo, o documento que em 1530 fixou os princípios doutrinais da Reforma Protestante. Nesse contexto, a obra assumia significados diversos. Por parte dos Mendelssohn, era um manifesto público da assimilação do protestantismo e de identificação com o regime prussiano.

O compositor Francisco Chaves em 2013, durante ensaio na Sede da Metropolitana
 
O compositor e guitarrista Francisco Chaves, natural de Castro Verde, venceu em 2013 o Prémio Novos Compositores (uma iniciativa da Metropolitana). Desde então, concluiu a licenciatura na Universidade de Évora, prosseguiu os estudos na Holanda e compôs um significativo número de peças para orquestra, música de câmara, coro e instrumentos a solo. Estreia agora o «Concerto de Sombras» com o violinista José Teixeira e a OML sob direção do maestro Michael Zilm. Num jogo de ambiguidades que questiona protagonismos, a obra instala-se na fronteira difusa que separa o solista da orquestra… quando o olhar se deixa iludir pelo teatro dos sons.

A Gruta de Fingal, Pintura de Thomas Moran (1837-1926) | Fonte: Wikimedia Commons
 
AS HÉBRIDAS
Chama-se Abertura, mas não precede uma Ópera. Tem um título teatral, mas não reporta a qualquer narrativa. Afinal, trata-se de uma obra orquestral autónoma que se impõe hoje no repertório de qualquer orquestra. Em 1830, resultava da inspiração de Mendelssohn diante de uma gruta situada na reserva natural marítima do Arquipélago das Hébridas Interiores, ao largo da costa escocesa. Num só fôlego, é um curto poema sinfónico que evoca o som e a paisagem de um lugar impressionante.