Os Concertos Brandeburgueses

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Musicália

Os Concertos Brandeburgueses




Os Concertos Brandeburgueses
Primeira página do autógrafo da partitura do
Concerto Brandeburguês N.º 5 de J. S. Bach.
 
O Concerto Brandeburguês N.º 3 é o mais popular, mas o N.º 5 será, porventura, o mais inovador dos seis célebres concertos que J. S. Bach escreveu para o Marquês de Brandeburgo. Muitos consideram tratar-se do primeiro concerto para Cravo e Orquestra existente, tal é o protagonismo confiado àquele instrumento.


 
Johann Sebastian Bach cerca de 1720 | Pintura de Johann Jakob Ihle (1702–1774)
 

A ORIGINALIDADE DE J. S. BACH

Uma das considerações mais frequentemente associadas à apreciação favorável das obras musicais é «a originalidade». Todavia, na primeira metade do século XVIII essa ideia não tinha cabimento. Todos os Concertos para Cravo de J. S. Bach baseiam-se em música pré-existente, e não deixam por isso de pertencer ao restrito núcleo das partituras mais influentes de sempre.


Katharinenstraße, em Leipzig. Ao meio, o Café Zimmermann. Gravura de Johann Georg Schreiber (cerca de 1732).
 
Entre 1704 e 1741, o Collegium Musicum reuniu no Café Zimmermann músicos profissionais e amadores em torno daquela bebida, mas também de alguma da melhor música profana que se fazia na época. Os Concertos para Cravo de J. S. Bach surgiram nesse contexto.


«Alegoria da Música» | Autor desconhecido / Fonte: Wikimedia Commons A palavra francesa «Suite» significa «Sequência» e, tratando-se de música, designa, precisamente, uma sequência de peças instrumentais relativamente curtas e reunidas num todo coerente.
 

          
Marquês de Brandeburgo | Pormenor da Pintura de Antoine Pesne (1683–1757)
 
OS CONCERTOS BRANDEBURGUESES
 
Os Concertos Brandeburgueses são uma coleção de seis peças instrumentais que Johann Sebastian Bach enviou em 1719 para o Marquês de Brandeburgo. Na sua variedade, são sucessivas demonstrações da destreza técnica e artística de um compositor «enorme».
 ***
 
    Brandeburgo é hoje um dos dezasseis estados federais da Alemanha. A cidade/estado de Berlim situa-se no seu coração e é administrativamente autónoma, o que não acontecia na primeira metade do século XVIII. Desde 1701, a região constituíra-se como Reino da Prússia no seio do Sacro Império Romano Germânico, entre um vasto conjunto de ducados e principados independentes. A partir de 1717, e durante seis anos, Johann Sebastian Bach foi Mestre de Capela da corte do príncipe Leopold de Cöthen, situada no estado vizinho da Alta Saxónia, cuja capital era a cidade de Madgeburgo.

    Em 1719, o compositor deslocou-se a Berlim a fim de adquirir um novo cravo para a corte do príncipe, uma viagem que, com a distância de 120 quilómetros, demoraria dois dias a realizar em carruagem puxada por cavalos. Aproveitou então a ocasião para se apresentar a personalidades importantes, porventura buscando alternativa à sua posição em Cöthen. Um desses contactos foi o Margrave Christian Ludwig de Brandeburgo (O Marquês de Brandeburgo). Christian Ludwig era meio-irmão de Frederico I, que havia sido o primeiro rei da Prússia, até à sua morte, ocorrida poucos anos antes. O marquês solicitara-lhe composições suas, mas só passados dois anos o pedido seria satisfeito. A demora ter-se-á devido à conturbada vida pessoal que Bach atravessou naquele tempo – quando lhe morreu um filho, a primeira mulher e um irmão.

    O caderno que chegou ao marquês foi cuidadosamente manuscrito pelo próprio compositor. Ao todo, reunia as partituras de seis concertos para formações variadas, como se se tratasse de demonstrações de competência junto do potencial patrono. Cada concerto tem, portanto, uma instrumentação diferente, sendo que nenhuma delas corresponde aos recursos existentes em Cöthen ou àqueles de que dispunha o dedicatário em Brandeburgo. Assim, eram agrupamentos inéditos, com partes solísticas destinadas aos mais diferentes instrumentos, requerendo intérpretes virtuosos. Por não assumirem um propósito funcional imediato, resultam em exercícios de composição singulares.

    Desconhece-se se estes concertos foram alguma vez tocados em tempo de vida de Bach. Seriam, porventura, demasiadamente exigentes do ponto de vista técnico para os músicos que o marquês teria ao seu serviço. A compilação dos seis concertos permaneceu praticamente esquecida durante mais de um século. Só o Concerto N.º 5 foi tocado com alguma regularidade. Na década de 1830 os Concertos Brandeburgueses foram, finalmente, interpretados no seu conjunto.
                  
«Instrumentos Musicais», pintura de Evaristo Baschenis (1617–1677) | Fonte: Wikimedia Commons


MÚSICA ANTIGA

A Música Antiga é um conceito moderno. Consiste na recuperação de repertório musical anterior a meados do século XVIII, quando teve início o capítulo da «verdadeira» Música Clássica. Um dos compositores que mais beneficiou com este fenómeno foi J. S. Bach, cujo nome permaneceu praticamente esquecido durante muito tempo. Consigo, também se recuperou o cravo, e significativa parte do repertório para este instrumento.


Primeiros compassos da partitura autografada do Concerto para Cravo N.º 4 em Lá Maior, BWV 1055.
As composições para cravo ocupam um lugar muito especial no legado de Johann Sebastian Bach. Os concertos, em particular, abriram caminho ao imenso protagonismo que o piano moderno veio a ter mais tarde.

Georg Philipp Telemann (1681–1767), gravura de Georg Preisler a partir de uma pintura perdida de Louis Michael Schneider, datada de 1750.
 
 
Telemann e J. S. Bach cruzaram-se em Eisenach, cerca de 1708, e conheciam bem o trabalho um do outro. O primeiro gozava de maior prestígio, na época. Ironicamente, a dimensão que a História atribuiu postumamente a Bach contribuiu para que o nome de Telemann tenha sido relegado para segundo plano.